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Existe uma idade para olhar para a infância? Reflexões de um cliente…

Criança Interior · 29 de setembro de 2026 · 4 min de leitura

Essa é uma pergunta que eu teria respondido de um jeito bem diferente alguns anos atrás. Na verdade, seria provavelmente uma pergunta que eu nem mesmo me faria. 

Mas vamos supor que alguém levantasse essa questão em alguma conversa entre amigos. Eu provavelmente diria que infância é uma fase da vida. Que passa. Que fica nas lembranças, nas fotos, nas histórias que a família conta.

Mas felizmente, depois de conhecer o trabalho da Jornada da Criança Interior, feito pela Claudia Drummond Couto, eu descobri que não é bem assim. E, ainda bem que descobri.

Depois desse trabalho e de conhecer esse conceito, eu percebi que a criança que eu fui ainda aparecia em muitos lugares. Não nas lembranças em si, mas na forma como eu reagia às pessoas, no jeito de sentir algumas situações e, no meu caso em particular, de não sentir algumas situações, nos medos, nas inseguranças e até nas alegrias mais simples.

E foi estranho perceber isso já adulto. Porque a gente cresce acreditando que precisa dar conta da vida, seguir em frente, amadurecer. Quase nunca alguém diz que amadurecer também pode ser voltar e olhar para partes da nossa história que ficaram sem cuidado.

O mais bonito desse caminho foi entender que não existe uma idade certa para fazer isso. 

Não importa se você tem 30, 40, 50 ou 70 anos. Sempre existe um momento em que alguma experiência da vida nos convida a olhar para dentro. Às vezes é uma crise. Às vezes é um relacionamento. Às vezes é cansaço de repetir os mesmos padrões sem entender o porquê.

E, quando esse convite aparecer, não desperdice esse momento para pelo menos refletir sobre essa possibilidade de olhar para você. Sim, talvez não seja o momento ideal, talvez seja muita coisa para você nesse momento da sua vida, e tudo bem!  Mas deixa essa portinha aberta, nem que seja só uma frestinha, para que você possa revisitar essa ideia de tempos em tempos.

Essa foi outra coisa que aprendi nesse caminho do autoconhecimento: depois de conseguir olhar, entender e, principalmente, acolher minha criança, somado a algumas outras dinâmicas e conceitos que conheci e aprendi, eu me pegava lamentando: 

“ - Poxa, porque não fiz isso há 10, 15 anos atrás? Provavelmente várias coisas teriam sido mais fáceis (risos) ou, pelo menos, diferentes!

E a resposta que ouvi da Claudia e de outros profissionais incríveis que tive o privilégio e modéstia a parte, (vou me dar créditos aqui risos) a coragem de conhecer foi simples:

“Você veio na hora que tinha que vir. No momento que podia”

E ouvi recentemente uma reflexão muito importante e bonita sobre esse tema do meu amigo e ótimo terapeuta André Chediek que, além de uma fonte de inspiração para meus textos é também um dos responsáveis por me incentivar a, volta e meia, olhar pra onde não estou querendo e precisando (mais uma vez obrigado!). 

Ele refletia em um vídeo exatamente sobre essa coisa da idade e que sim, é muito comum e triste que o passar do tempo vá dando um senso de impotência para muita gente. Uma sensação de que não somos capazes e nem sabemos cuidar de nós mesmos, mas que isso é fruto de um processo longo de desresponsabilização sobre a própria saúde, sobre a nossa maneira de atuar no mundo. Então, isso gera desafios.

Mas sabe o que é bonito também de descobrir? Que apesar dos desafios, nunca é tarde para entender melhor a própria história.

Nunca é tarde para acolher uma parte de nós que aprendeu a sobreviver do jeito que conseguiu.

Nunca é tarde para olhar para aquela criança com mais carinho do que ela talvez tenha recebido em alguns momentos. 

Eu gosto de pensar que revisitar a infância não é ficar preso ao passado. É permitir que o adulto que eu sou hoje encontre a criança que eu fui. E esse encontro muda alguma coisa. Não muda o que aconteceu, mas muda a forma como eu caminho com essa história daqui para frente.

Talvez seja isso. A infância passa. Mas a possibilidade de olhar para ela com novos olhos continua existindo.

Sempre dá tempo para se conhecer melhor. Sempre dá tempo para se acolher. E sempre dá tempo para começar uma relação mais gentil com a gente mesmo. 


Assinatura Rodrigo Dantonio Correa

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